04 Março 2012

Minhas Leituras Cotidianas - Teppu

Em apenas uma imagem para ilustrar quem é a protagonista e do que trata Teppu:


Queriam uma história com protagonista bom, forte e de personalidade? Aí está, essa grande filha da puta.

Teppu começa como mais um daqueles mangás colegiais quaisquer, aparentemente, com a protagonista se lamentando da sua relação com seus colegas de escola, da forma como é incompreendida e não tem nenhum objetivo na vida no momento para aproveitar melhor sua fase de colegial. Com uma pequena diferença: ela se lamenta de ser boa demais.
Sim, a tristeza dela não é por ser fraca, é por ser forte demais, acima da média das pessoas comuns.
Ela não é daqueles tipos de ficar parada sem fazer nada, ela é bem ativa, quando dá vontade de fazer algo ela vai lá e faz e não fica se matando para poder fazer a atividade direito. Isso causa um grande conflito nos clubes esportivos do colégio por onde a Natsuo passa, onde há muita gente se esforçando bastante para melhorar sua habilidade no esporte que escolheu e se tornar competitivo para não fazer feio nas competições e enquanto isso veem a Natsuo bundeando por lá no maior estilo Mané Garrincha. Ficam de implicância pela falta de dedicação dela nos treinos mas quando ela entra em jogo ficam reclamando para pegar leve.
Isso acontece com a Natsuo por ela ter nascido com talento.
É exatamente isso, ela é naturalmente boa e os problemas que ela enfrenta por ser abençoada desse jeito é de adaptação para viver entre as pessoas normais que tem que pensar e se esforçar para fazer coisas que para ela são banais.

Teppu é um mangá interessante por dois motivos.
Primeiro pela Natsuo, pelos motivos que descrevi acima. É como se fosse uma história sobre aqueles personagens antagonistas que o protagonista padrão dos shounens sonha em superar, um daqueles de personalidade bem irritante.
Só que por mais irritante e revoltante que possa ser em alguns momentos é algo bastante interessante de se ver já que raramente acompanhamos a trajetória psicológica desses personagens. Por que só os mocinhos e "pessoas de bem" podem trucidar os antagonistas? Eles podem ter atitudes questionáveis, mas não são necessariamente "maus", por que ele não pode obliterar, varrer o chão, humilhar, sambar na cara e fazer piada com o guerreiro da justiça que vai desafiar ele em uma luta justa? E sim, a Natsuo faz literalmente isso mais de uma vez, dá muita pena das coitadas que ela destrói, ainda mais que elas também não são nada fracas.
Vendo essas cenas eu ficava pensando porque é que a Natsuo fazia aquilo, daquela forma, com  tanta "crueldade"? Entendo que em alguns casos não seria correto ela pegar leve, mas passa a impressão de ela ter muita maldade no coração. O único motivo claro de ela fazer isso é um só: ela pode. São poucos os que são capazes de fazer o mesmo que ela e se ela pode então é um desperdício não fazer. E esse é justamente o conflito interno da Natsuo. Sendo sempre tão boa em tudo o que fazia ela não conhece a sensação de recompensa, pelas vitórias virem tão fácil. E por esse motivo ela também não tem a sensação de satisfação pelo reconhecimento, porque as pessoas ficam com inveja e ressentidas dela. Não é fácil perder, principalmente quando você se dedica tanto por alguma coisa, e toda a hostilidade que a Natsuo sentia por suas vitórias foram construindo para ela um altar de desprezo pelos mais fracos.
A verdade é que ela se acostumou e criou gosto por isso e agora não quer perder essa posição de prestígio indo atrás de qualquer um que ameace a hegemonia dela e a história tem início justamente quando aparece esse desafiante.

O segundo motivo de Teppu ser uma leitura interesse é o contexto onde essa competição ocorre:


MULHERES DANDO PORRADA!


A história de Teppu começa com a chegada da garota Ringi Cordeiro ao Japão [nota - Nome ridículo. Quem pensou nele? Sério, nem para dar um apelido decente para a personagem], para estudar e lutar na liga feminina de lá e também no grande torneio das mais fodonas que será realizado lá.
Ela vai estudar na mesma escola que a Natsuo por ter uma amiga que estuda lá, que também é sua companheira de lutas e discípula do seu pai, o lendário Mario Cordeiro. Essa amiga é Yuzuko aka Macaquinha que fica empolgada com a vinda da amiga e decide abrir um clube de MMA na escola e naturalmente ela convida a Natsuo para participar, afinal, não tem como não ver uma garota enorme de cara emburrada passando na frente dela. A partir daí começa a relação de amor e ódio das duas... tá, só da Natsuo que imediatamente não vai com a cara da Yuzuko.
A Yuzuko não tem nenhum talento em particular ao que parece mas a dedicação que tem pelo esporte dá resultados isso acorda o Pica Pau que a Natsuo tem no coração. Depois de muito tempo ela tem um objetivo para correr atrás que é quebrar os ossos da Yuzuko. E para isso ela se envolve com o MMA feminino profissional.

Até aonde o mangá está a Natsuo ainda não foi muito longe, ela é uma novata e está começando naturalmente de bem baixo.
É bacana ver o submundo do esporte, as regras, como funcionam os torneios e tal, e também a diferença entre a modalidade feminina e masculina. Na masculina é só espetáculo e rios de dinheiro, mas a feminina tristemente é bem pobre. Pode-se dizer que a série humaniza um pouco o esporte ao mostrar que por ser algo pequeno os lutadores todos se conhecem e costumam a maioria treinar junto, e também, a grande maioria principalmente no caso das mulheres são pessoas bem comuns. Muitas da lutadoras de Teppu são donas de cada e secretárias que nos finais de semana se divertem nos ginásios e se aventuram nos torneios.
Sobre as lutas eu posso dizer que são boas, eu pude sentir que o autor sabia o que estava desenhando, ele tem boas noções de como funciona uma luta de verdade, tanto o combate direto quanto o confronto no chão com agarramentos. Algumas horas é como ver um passo a passo daqueles agarramentos infinitos do King de Tekken. Dá para aprender algumas coisas ali.
Se ainda tudo isso vai levar, se vai ser um slice de mulheres se agarrando ou se tem um objetivo, a segunda opção é verdadeira, há um objetivo claro para as personagens de Teppu e não vai demorar muito para chegar nele. Caso não queira continuar lendo um mangá infinito, dá para acompanhar tranquilamente pelo menos até o fim dessa fase. O que mais pode impedir de ler são as ideias da Natsuo, não duvido que algumas pessoa cof cof Martec cof cof... vai se incomodar bastante e não será nenhuma surpresa.
As ideias da Natsuo são um pouco estranhas no início, não é algo que estejamos acostumados a ver sempre, mesmo que isso também seja um atrativo, objetivos tão egoístas como querer ser melhor que os outros e humilhá-los. Nas próprias palavras da Natsuo ela está feliz porque tem alguém que ela quer fazer lamber os pés dela.


O que mais deixa curioso sobre a Natsuo é que ela é mesmo uma boa personagem.
Ela tem um ar superior em torno dela e isso é planamente justificado porque ela de fato é superior. Geneticamente ela é privilegiada, uma japonesa mais alta que a média e de corpo forte, fortalecido pelo karate que praticou durante a infância. E não é apenas músculos, ela tem uma cabeça boa também, é calma, centrada, metódica. Algo que ela percebe quando entra no MMA é que lá o esforço importa. Ela pode ter talento mas sem a manha do esporte é difícil de ela vencer alguém que saiba o que faz no ringue. Isso transforma a vida dela, ao finalmente encontrar algo em que ela precise se esforçar para ser boa. Investindo nisso ela ainda consegue manter a calma que tem permitindo tirar proveito de seu talento natural, e ainda é sacana de esconder o jogo com resultados devastadores.
Sabe como acontece no final de um arco em que o herói todo acabado tira uma carta da manga e vira o jogo? É por aí.
Isso faz com que ela seja um pouco misteriosa, não dá para ter certeza do que ela vai fazer, ainda mais que sabemos que ela tem seus segredos, um em particular que parece ser todo o responsável por ela ser quem é hoje e o mais intrigante, sempre que esse segredo passa por perto dela ela se transforma em outra pessoa totalmente diferente. Quem é a Natsuo que aparece nessas horas? E como ela realmente é no fundo? Ou é só um trauma que ela tem para superar?

Uma incógnita são as outras personagens personagens da história, todas mulheres "fortes" como a Natsuo e cada vez mais putas com ela.
Muito sangue ainda será derramado nessa história.

7 comentários:

Sheol Halerquinade disse...

Eita carai!!! Parece amor a primeira vista.
Nunca ouvi falar de uma história parecida ou igual a essa, mas agora que vi o post parece que eu encontrei o que estava procurando por anos, LOL.

Lukas Takatani disse...

Comecei a ler e gostei do que vi. Curiosamente pessoas que nem a protagonista obviamente sempre existiram na vida real (principalmente nos esportes) e essa pegada psicológica foi o que mais me prendeu ao mangá. Como disse o autor da análise, poucas são as histórias que focam em personagens com uma personalidade cruel e popularmente denominada como "má". Então nada mais natural que o mangá se diferencie dos demais. Agora só resta esperar que o que começou bem termine da mesma maneira ou se supere.

Nossajorge disse...

Cara, não concordo muito.

Primeiro porque se tu é tão bom em esportes que não possui ninguém a altura e quer desafios vai fazer atletismo, salto com vara, salto em distância, corrida e bater seus próprios recordes. Na vida real não existe essa história de talento puro vs. treinamento e esforço. É sempre a soma de ambos (com um pouco de sorte e inteligência) que nos leva para o sucesso. Simples.

Segundo porque a protagonista não é uma anti-herói fods com desejos e sonhos próprios enfrentando outros personagens iguais (estilo os "vilões" de Hajime no Ippo). Ela é uma garota que não sabe o que quer, às vezes dá um semi-bullying em alguém, às vezes fica meio depressiva por não ter nenhuma meta e às vezes fica excitada com algo qualquer.

Não entendi porque ela conhece as brasileiras e não se junta a elas. Ela tá lá, procurando algo pra fazer e aparece as malucas apresentando aquele novo mundo e então ela foge? Vai atrás das japonesas totalmente fora da escola e nada a ver com a história pra treinar? Pra mim pareceu uma tentativa forçada de fazer as estrangeiras se tornarem as rivais ou vilãs. Talvez eu esteja errado.

O que eu gostei mesmo foi dessa "amostragem" do mundo do MMA feminino, bem interessante. Inclusive as cenas de ação com grappling ficaram muito boas, pra mim até revolucionário (nunca tinha visto nos mangás).

Panino Manino disse...

Entendo o que você quer dizer, mas no mangá é isso mesmo cara, a Natsuo TEM talento, é estabelescido que ele existe e é um diferencial que coloca automaticamente à frente de quem se esforça.

Por exemplo, quando ela obliterou a perceira naquele mini-torneio.
Quando treinavam, ela não reagia, apenas deixava rolar e observava os movimentos. Apesar dela conhecer os movimentos da rival, ela conseguiria mesmo reagir tão rápido com tanta precisão sempre? Apenas pelo instinto?
Isso é talento.

Nossajorge disse...

Entendo e adoro esse estilo, inclusive sempre faço isso quando treino qualquer esporte. Treino é isso mesmo, aprender e não vencer.

Mas o drama do "Pena de mim que sou tão talentosa" e também o "Que raiva daqueles que nascem gênios!" me deixa puto!Sinto MUITA falta de personagens que utilizam um mínimo de estratégia (como essa de conhecer seu inimigo) e que consigam vencer inimigos muito mais fortes que eles próprios assim como sinto falta de protagonistas naturalmente poderosos que detonem todo mundo. Sou maior fã de personagens "grossos", diretos e até meio malvados, mas a questão é que esse não é o caso.

O que eu tentei dizer é que a protagonista não possui ideais. A mente dela é falha. Ao menos queria que ela tivesse um pensamento "posso e faço o que eu quero" e já seria alguma coisa, mas o que eu senti foi a falta de qualquer direcionamento.

Um exemplo é o Usui Takumi de Kaichou Maid-sama. Ele é forte, inteligente, rico adorado pelas mulheres e respeitado pelos homens e por incrível que pareça eu não fiquei com ódio dele (como costumo ficar). Graças a um simples motivo: ele tem mente forte. É decidido, tem ideais próprios. 

Outro exemplo mais bizarro é o próprio Coringa do último filme do Batman. O cara é instável. Um gênio louco psicopata. Mas mesmo assim ele possui uma mente extremamente forte. Possui ideais. Não importa se são certos ou errados, importa a força destes e de sua vontade.

Panino Manino disse...

 Eu apenas acho que entendo aonde você está querendo chegar, mas sinto que me falta entender algo. Talvez nós simplesmente tenhamos interpretações diferentes do que vimos.

O segundo parágrafo, eu não entendo.
O que você reclama e diz que gostaria de ver não é justamente o que existe em Teppu?
A Natsuno não derrota adversários teoricamente mais fortes no próprio estilo deles? Ela não é grossa, pisa nos outros, é malvada e humilha? Realmente acha que esse não é o caso dela depois de ela varrer o chão com aquela karateka e só não ter quebrado a cara da outra no parque porque foi impedida? Ela ter sido impedida ali foi só o que faltou para você mudar de ideia, se dependesse dela ela faria algo pelo qual seria até presa.

Nossajorge disse...

Talvez seja minha percepção.

Vejo a protagonista como alguém com atitudes muitas vezes más, não sempre mas algumas vezes, e a impressão que me passou é que ela é sim meio malvada e não que apenas tem ações que podem ser consideradas ruins. Aceito trolls ou brincalhões, aceito pessoas com complexo de herói e aceito pessoas que não estão nem aí pra nada. Mas ninguém tem o objetivo de ser vilão (como histórias infantis teimam em nos contar). 

Achei isso um pouco ruim pra construção da personagem, ainda mais somado a falta de ideais e filosofias como disse antes e a choradeira de "que droga, sou boa demais e ninguém me entende". Não que não tenha ficado realista mas achei que ficou fraco. Por quê? Não sei, mas eu que adoro o lado negro da força e rezo pra que tenha alguém que enfie porrada nos santinhos chatos simplesmente não comprei a idéia passada neste mangá.

Não gosto de bullying, gosto de atitude. 

A protagonista é o inverso disto. Talvez tudo mude com revelações do passado da protagonista, mas aí continuo achando que falta profundidade. Faltou mostrar os reais medos e sentimentos mais profundos da Natsuo, dar indícios do porquê agir daquela forma e sair do simples "quero lutar com alguém que possa me fazer perder".

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