Não Mais Humano, tradução do título, é não a obra com maior apelo emocional para o ocidente de seu autor Furuya Usamaru, é seu primeiro grande título pensado e formatado para esse mercado, desenhando simultaneamente em duas versões, a de leitura oriental para o Japão e a de leitura ocidental para o resto do mundo.
Hoje, com a popularidade que os mangás de leitura oriental conquistarem no mundo eu não sei dizer se isso era necessário, mas é uma atitude interessante e gosto de pensar que esse é apenas mais um indicativo do talento e visão do Furuya. Só que esse esforço em criar um material de apelo ocidental para por aí em seu sentido convencional. Esse agradar ao ocidente não significa fazer algo que as pessoas queiram simplesmente ler e se divertir, não é tentar fazer algo no "estilo ocidental" seja lá ele qual for, algo com o que estamos acostumados a ver sair daqui. Para o Furuya Usamaru isso significa simplesmente sentar a bunda na cadeira e dar o melhor de si, colocar suas habilidades à prova e criar uma obra não que seja do agrado ocidental, mas algo tão bom que nem o ocidente poderia resistir.
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Pois chega a ser irônico considerar tudo isso, essa investida do Furuya adaptando para mangá o clássico livro de Ozamu Dazai, pois ao contrário do protagonista Yozo Oba que viveu uma vida cheia de vergonha, o Furuya Usamaru parece viver uma vida cheia de orgulho.
Ningen Shikkaku (Desqualificado Como Ser Humano), como já mencionado, é um livro publicado em 1948 pelo japonês Ozamu Dazai. Um absoluto clássico de público e crítica, sendo até a presente data o segundo livro mais vendido no Japão, visto por alguns como um testamento do autor que se matou logo após sua publicação.
Como uma espécie de "Crime e Castigo" e "Apanhador no Campo de Centeio" oriental, o livro narra em primeira pessoa as memórias de Yozo Oba, desde sua infância e em como ele se tornou a pessoa que é, até tomar consciência disso e se ver encurralado, mais desesperado do que acreditava ser possível e encontrar sua ruína final.
Por mais que seja uma história interessante, o segredo de seu sucesso é sua narrativa absolutamente eletrificante. Já sabemos desde o título que iremos ler sobre o sofrimento de um homem e, mais do que não sabermos o que esperar depois das primeiras páginas, não podemos resistir à saber sobre a situação do Yozo e seus motivos e sentimentos através do relato do próprio, que como logo percebemos parece ser uma projeção do próprio Dazai passando a limpo sua vida.
Mesmo não sendo nenhuma obra biográfica de fato, basta olhar qualquer biografia do Dazai para ver as semelhanças saltarem à vista, e que ele usou muitos fatos que presenciou e viveu. Mas vamos deixar isso de lado, já que não vou comentar aqui sobre o livro que nem mesmo li, o foco é somente o mangá do Furuya.
Algo que se destaca na narrativa em geral do mangá é um truque muito inteligente usado pelo Furuya Usamaru. Mesmo sem saber tudo dito acima, está na capa, "Baseado na Obra de Ozamu Dazai". Querendo ou não sabemos que o que iremos ler é adaptado de um livro, e é então que o Furuya quebra essa expectativa. Ele abre o mangá com ele mesmo em seu estúdio, folheando seus antigos mangás (no caso Genkaku Picasso) procurando por ideias para seu próximo trabalho. Sozinho tarde da noite ele começa a vagar pela internet quando recebe um mail de um anônimo lhe indicando algo que ele pode achar interessante. Ele descobre o site "Não Mais Humano", onde está registrado o diário de Yozo Oba.

Vendo três fotografias de tês períodos recentes da vida do sujeito ele fica intrigado sobre o que pode ter provocado tamanha mudança em uma pessoa. E então, começa a ler o diário, nos narrando a história do Yozo através de sua pena, assim renovando o interesse pela história.
O protagonista Yozo Oba seria o que chamam de um pobre menino rico.
Ele vem de uma família privilegiada financeiramente, dona de empresa forte. Como esperado seu pai tem grandes expectativas dele, que como filho, mesmo não sendo o primogênito, tem o dever de crescer dignamente e se fazer para dar continuidade a linhagem da família. Só que ele é fraco e desajeitado. Desde pequeno ele não consegue corresponder as expectativas do pai, muito menos compreender quais são essas expectativas. Com o tempo ele aprendeu a pelo menos fingir.

No Longer Human é sobre um homem desempenhando seu papel no grande teatro do mundo e enganando a si mesmo sobre isso. Yozo faz dessa atuação seu estilo de vida e sua única diversão.
Yozo Oba é um homem difícil de descrever.
Não podemos dizer que ele seja inteligente ou burro, cínico ou sarcástico, de bem ou não, mais do que um tipo de ser humano, ele é um produto fabricado sem finalidade definida. É "alguma coisa" que não está exatamente vivo, apenas de passagem pelo mundo. O pior é apesar dele se achar no domínio do meio em que vive ele não percebe sua real situação.
Acompanhamos sua história vendo-o sem saber como lidar com as situações familiares, sem compreender o relacionamento com o pai e os próprios desejos. Sem saber o que fazer ele encontra uma solução adiando as respostas, reações, e atitudes que deveria tomar. Primeiro ele não sabe, depois ele não quer, e passa a enganar a todos criando um personagem perfeito, exatamente o que todos parecem esperar dele, ou pelo menos o que elas supõem que ele seja. Durante o colégio ele é o aluno mais simpático e querido da escola, o bobo da corte que faz a todos sorrirem. A partir de minuciosa observação ele aprendeu qual a melhor e esperada reação em cada momento, desenvolveu suas habilidades acadêmicas ao ponto de controlá-las para não se destacar e despertar ciúmes.
Yozo chega em um ponto em que começa a se entediar, ainda mais do que já é, com essa situação na qual o mundo não lhe oferece nenhum retorno, até que ele faz um novo e aparente primeiro amigo com o qual ele deixa de vestir sua fantasia. E é justamente nesse ponto, em que ele deixa de representar, ele deixa de fazer seu papel, que os problemas começam.

Não Mais Humano é um título que nos apresenta uma noção errada do Yozo Oba.
A pressão que o pai lhe colocava não o reprimia, muito pelo contrário, ela o sustentava.
As cordas do títere ao invés de manipulá-lo, elas o impediam de ir ao chão, o mantendo de pé.
Ao se deixar arrastar pelo ambiente ao seu redor, em uma falsa sensação de estar exercendo sua liberdade, Yozo se encontra diante de uma escolha que pode, pela primeira vez, afetar os rumos da sua vida. Ao refletir sobre isso é o momento em que ele tem a consciência de quem verdadeiramente manipula as cordas do seu títere. Se rebelar contra isso e tomar uma decisão por vontade própria é o que o leva para a ruína.
Yozo Oba não se transforma em nenhum tipo de monstro ou ser não humano. Isso acontece porque ele nunca foi um humano de fato, ele é um ser "Desqualificado Para Ser Humano".
Ao tomar consciência disso ele começa a fazer tudo que é errado e a sabotar a própria vida, levando a se afastar das pessoas, ir ao fundo do poço e a conhecer o desespero.
Há um ponto de dúvida sobre o Yozo, se ele é apenas desajustado ou se há uma boa dose de trauma infantil nele. Seu relato nos dá a entender que ele foi abusado quando criança pelas mulheres da casa. Porém, mesmo que isso seja verdade não parece tê-lo afetado, ele não apresenta nenhum sinal de trauma por conta disso, nem problema com as mulheres, ele até que se relaciona muito bem com elas.
É quase irônico que muitas das pessoas com quem ele cruza quem parecem ter problemas.

A história em si já é excelente, e a narrativa do mangá consegue ser poderosa e fazê-la bem impressionante, e nos impressiona também a arte do Furuya. É um traço caprichado e sóbrio, muito bem feito, e como esperado, com várias mostras de sua inventividade. Esse primeiro volume se beneficia de todos os recursos narrativos que a arte poderia lhe proporcionar.
Um espetáculo.
Por fim, esse primeiro volume por mais que nos conte sobre os altos e baixos da vida do Yozo são só o começo de sua tragédia.
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6 comentários:
Agora fiquei curioso: ele desenhou duas versões ou apenas espelhou e fez as adaptações necessárias aqui e ali para o ocidente?
O Ed Chavez me disse que ele desenhou duas versões. Não acredito que tenha feito tudo do zero duas vezes, ele deve ter recortado e colado, e redesenhado só as partes que ficavam estranhas, mas sim, ele refez o mangá todo.
Estou muito interessado em ler No Longer Human,pois a primeira novel de Bungaku Shoujo roda envolta dele, e como a estou lendo, deu vontade de ler ele também. Pensava em procurar o livro, mas parece ser legal ler as adaptações também.
Se for comprar, aproveita que ainda está em pré-venda.
Mas faz sentido. Os materiais que ganham prêmios e atingem o público realmente adulto nos Estados Unidos, como os quadrinhos de Yoshihiro Tatsumi, tem saído espelhados. Parece ter surgido em anos recentes essa divisão por lá: adultos preferem espelhado, adolescentes preferem o sentido original. Provavelmente Furuya tem ciência disso e sabe qual o público que ele quer atingir.
Eu acho que vou encomendar esse material, mas vou esperar os três saírem pela Vertical. Livros são mais práticos do que revistas nesse ponto, você pode se dar ao luxo de esperar.
:}
Me pareceu que ele quis adjetivar o substantivo humano como sendo uma meta para se alcançar a honra tão superestimada na cultura nipônica.
Adequar-se e velar-se é cômodo e traz muitos benefícios para uma vida social,mas é degradante,todavia recompensador a curto prazo...O quanto ele quis filosofar sobre a condição humana?
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