05 Dezembro 2011

Entre o Drama Justo e a Autopiedade.


Todos gostamos de dramas e sofrimentos, ou no mínimo precisamos deles, é o que dá sentido a felicidade.
Por mais que você não goste, a felicidade sempre será maior se antes houver sofrimento, isso é algo ensinado pelo teatro grego antigo chamado de catarse (onde o oposto também ocorre), e também é algo que não é verdade apenas na literatura ficcional, na vida funciona de forma igual.

Lembre do quanto foi bom e emocionante ver o herói de uma história vencer no final, depois de ser derrotado várias vezes e vendo seus amigos caírem pelo caminho.
Sofrimento é o que move a história, é o caminho que a felicidade tem que percorrer.
Só que as vezes esse sofrimento chega repentino e sem aviso e em sua pior manifestação: a morte.

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Não é nada de incomum a morte de um personagem, mas ao contrário da imprevisibilidade da vida real, na ficção há um planejamento prévio, as mortes acontecem por algum motivo e propósito narrativo. As vezes é consequência de toda uma "saga", em outras é a própria morte que dá início a uma nova "saga" da história. Algumas histórias são justamente baseadas nessa premissa.

Nos animes e mangás temos exemplos típicos como os dos shounens.
Aliados morrem, e antes de morrerem dão alguma contribuição para o herói que após mais batalhas consegue matar o vilão. Em alguns casos a história começa na morte do herói anterior, como no caso de Claymore.


Em Claymore temos a protagonista Clare, que a primeira vista não tem nenhum objetivo definido ou antagonista. Nos volumes posteriores nós vemos que não irá aparecer nenhum antagonista para mover a história pois ele já apareceu muito tempo antes do ponto onde o mangá começou. A protagonista era outra, a Claymore Teresa. Ela era uma guerreira muito forte, explicitamente a mais forte de todas e também uma personagem de personalidade interessante. Sem aviso, para a surpresa do leito, ela é morta em literalmente um piscar de olhos. Então a situação muda e a Clare passa a ser a protagonista com um objetivo de vida bem definido, que é vingar a morte da Teresa.
Essa morte serviu de ponta pé inicial para a série.


Em Full Metal Alchemist vimos outra morte de um personagem carismático com semelhante propósito narrativo.


Maes Hughes era o personagem mais carismático e inocente da história, um verdadeiro herói. Tínhamos expectativas de ver muito mais dele, porém ele foi injustamente morto, sendo em seguida enterrado com honras e muitas lágrimas foram derramadas por ele.
Por mais que o personagem pudesse ter potencial de brilhar ao longo da série, sua morte não foi em vão, muito menos um momento de impacto emocional apenas.

Não existia Maes Huges sem Roy Mustang, e vice versa.

Eles eram uma dupla, um só elemento da história. Os dois tinham o mesmo objetivo e por ele ser quase inalcançável formaram uma aliança para lutar por esse objetivo juntos. Então, o que aconteceria se um deles morresse? Esse objetivo estaria perdido? O outro iria desistir? Ou iria continuar lutando sozinho, pois afinal, mais do que estarem juntos, o sucesso dependia exclusivamente da obstinação de cada um?
Essa morte teve o claro objetivo de criar um cenário mais dinâmico e imprevisível para o Roy Mustang, dando mais espaço para ele batalhar e brilhar. A morte do Maes Hughes não foi em vão, foi uma escolha narrativa da autora e ela trabalhou em cima disso.
Uma das qualidades da dupla era a sua obstinação em lutar por um objetivo idealista e improvável de se alcançar.
Deixar Roy Mustang sozinho só maximizou isso.



Um outro exemplo que eu gostaria de comentar e que se encaixa aqui reside no mangá With the Light.
É a história de uma mãe que tem um filho autista e a luta dela para criar e educar seu filho, com todos os obstáculos que a deficiência dele trás junto com a falta de compreensão e paciência da sociedade em geral.

Mai Waifu
Um dos desafios apresentados é a educação de crianças deficientes.
Não atoa é chamada de educação especial. Cada criança, no caso do autismo principalmente, deve ser educada de uma forma única e personalizada, mas não há escolas nem professores capacitados para isso. Com alguma sorte a família Azuma consegue matricular seu filho Hikaru em uma boa escola, dirigida por uma diretora compreensiva e dedicada em criar o melhor ambiente para seus alunos, e que também dispõe de um professor especializado em educação especial. Com esse professor, Shigeru Aoki, vemos como se educa uma criança autista. E essa não é uma educação escolar comum, estamos falando de capacitar a criança para conseguir sobreviver por conta própria. O professor Aoki realmente se importa e se dedica à sua profissão, mas ele é um caso raro.

Uma das coadjuvantes da série é a garotinha Miyu Honda. Ao contrário dos Azuma, ela e sua mãe não tiveram a mesma sorte de ter a disposição um professor tão bom e atencioso quanto o Aoki, de forma que a Miyu passou anos negligenciada e jogada na creche e na escolinha. Ela era apenas um incômodo que era mantida no canto.
Ao ser matriculada na mesma escola do Hikaru, a mãe da Miyu fica chocada ao ver que alguém como o Aoki existe, que a Miyu pudesse ser educada, que ela fosse capaz de sentar para aprender coisas simples, como ir ao banheiro quando tivesse vontade e até mesmo a ler e escrever.
Durante 3 volumes aprendemos muito com o professor Aoki, as personagens e nós leitores, mas a autora tinham que manter a história viva e então agiu.
Primeiro o professor Aoki teve que ser transferido para outra escola. Foi algo natural e esperado, um dia iria acontecer, mas e como ficariam Hikaru e Miyu? Certamente que não existem dois professores como o Aoki. Felizmente as mães ainda tinham a amável diretora que iria dar um jeito de encontrar um bom substituto para o novo ano letivo, só que ela sofre um derrame e morre.
Em uma página a diretora morreu.


A morte da personagem pode ter sido inesperada, mas sem dúvidas foi algo compreensível.
A série estava em um cenário muito confortável que poderia levar ela a secar suas ideias, igualmente sendo ruim para as crianças da história. Não podemos nos esquecer de que normalmente elas teriam que conviver com situações desagradáveis como a que a Miyu havia passado até então.
O novo diretor não é nem um pouco idealista como a antiga diretora, a como substituto as crianças tiveram uma velha professora prestes a se aposentar que pegou a vaga como uma oportunidade de trabalho fácil. Essa nova professora não tem competência nem vontade de educar as crianças da forma como elas necessitam, as mães tem que conviver com esse problema, e as crianças tentar sobreviver a esse retrocesso que pode afetar permanentemente suas vidas.
Toda essa mudança de cenário foi benéfica e renovou completamente a história, portanto foi uma morte aceitável.
A nova situação trouxe novamente muito sofrimento, tanto quanto já havia tido em seu início, mas os lados de todos os personagens são considerados, inclusive o da velha nova professora que tem seus motivos para ser omissa. Não é um sofrimento em vão, apenas para satisfazer, é um sofrimento necessário para trazer mais felicidades para a história.


Só que nem sempre uma morte é justificada ou necessária para a história, pelo contrário. Há casos em que ela não acrescenta nada, nada além de mais sofrimento pelo puro espetáculo do drama e choro alheio.
Infelizmente um mangá de que eu gosto muito sofre desse mal: Twin Spica.



Twin Spica é um drama quase slice of life, mas é uma série onde os personagens tem objetivos, grandes sonhos, e correm atrás deles. Quanto mais alto o sonho, mais se tem que escalar para alcançá-lo. E tem muito drama, muito.
A começar, a série começa com uma grande tragédia, uma falha em um lançamento de foguete que cai em cima de uma cidade. A nossa pequena protagonista Asumi Kamogawa tem uma vida sofrida desde bebê devido a isso. Ela nasceu prematura e por isso tem um braço fraco, sua mãe morreu protegendo ela no "Desastre do Leão", sua estatura é muito baixa o que pode impedir ela de alcançar seu sonho de ser astronauta.
Toda a tragédia do queda do foguete Leão deixou marcas profundas em pessoas por todo o país. Sendo um projeto tão grande, centenas de pessoas estavam envolvidas com ele e mesmo após tantos anos sofrem as consequências da tragédia.
Não bastasse isso, há as dificuldades da vida cotidiana e por aí vai.


A morte é algo sempre presente em Twin Spica, afinal um de seus personagens chave é um fantasma, mesmo assim ela sempre foi presente como apenas mais um pequeno obstáculo que os personagens usavam para subir um pouco mais alto para perto de seu sonho. Só que em algum momento o autor parece ter exagerado.
A série é muito auto contida, eu entendo e aprecio como qualidade a forma como os personagens nem sempre dizem o que pensam desnecessariamente, principalmente não dizem para os outros o que eles deveriam falar. Essa é uma qualidade particular da série, mas tem momentos em que o autor parece exagerar. Tudo seria muito mais fácil para os personagens se eles resolvessem em alguns momentos dizerem algumas palavras. Não é que eles não falem quando chega o momento, é uma questão de compartilhar seus sentimentos com os amigos tão preciosos que eles adquiriram. Mesmo se importando tanto uns com os outros, todos permanecem um mistério para os outros após anos de convivência.

Após uma dezena de volumes a série chega em um ponto em que os personagens precisam colocar para fora algumas coisas, eles começam a se questionar, o momento para isso finalmente chega, só que então um deles morre. E não havia motivo nenhum para isso.
Veja bem, todos eles já eram amigos eternos, por mais que chegue a hora de se separarem, todos iriam continuar perseguindo seus sonhos e torcendo pelos outros. Um deles se destaca e parte primeiro em busca do seu sonho, os outros vivem na expectativa e felicidade por ele, e então ele morre. Pra quê? Ele indo embora para outro país o faria tão presente quanto se estivesse morto, mas morto ou vivo ele permaneceria nas mentes dos amigos que continuariam a lutar pelos seus sonhos e esperança de um dia se reencontrarem, mas se reencontrarem em VIDA, em morte é desnecessário porque sabemos que de uma forma ou de outra todos se reencontrarão depois de mortos. O que essa morte acrescentou na história além de chochorô, além de um ficar mais solitário, um de coração partido, um atormentado pela possibilidade de ter o mesmo destino e um por chorar ainda mais do que o de habitual?

Não vejo nada.



Twin Spica é bom por não negar como a vida é dura e as vezes injusta, mas sempre lembrando que ela é assim para todos então devemos dar duro e nos esforçar pelo que queremos. E como todos compartilham as mesmas experiências, juntos podemos fazer tudo isso valer a pena. Só que a série parece se deslumbrar com seus dramas e faz disso um espetáculo, faz do drama e sofrimentos dos personagens sua diversão, sem realmente acrescentar nada além de olhar de paisagem. É para no final, que será um final feliz não tenho dúvidas, fazer com que a catarse seja maior? Ter valido a pena passar por tudo que aconteceu?
Para isso não é preciso viver no inferno para ir para o paraíso.



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4 comentários:

Anônimo disse...

:)

Só as mortes de Teresa do sorriso aparente de Claymore e Maes Huges de Full Metal Alchemist/Full Metal Alchemist Brotherhood assisti,porém compreendi em todos as importãncias das mortes para o desenvolvimento das temáticas almejadas.Se a morte não for só um pretexto para um dramalhão mexicano ou um reforço da cultura piegas do sofrimento <=> superação sua adição é bem-vinda.

ana-chan disse...

Não li Twin Spica, mas fiquei meio chocada com essa parte:

"Um deles se destaca e parte primeiro em busca do seu sonho, os outros vivem na expectativa e felicidade por ele, e então ele morre. Pra quê?"

Que tenso, passei por algo bem parecido na vida real XD

Realmente, 'pra quê' é a única reação que resta depois de algo assim acontecer.

Talvez justamente por não ter propósito narrativo nenhum essa seja a cartada mais próxima da vida real. Sei lá, talvez o autor tenha tentado mostrar esse lado, a impotência dos amigos ao redor, o mundo que continua a todo vapor porque aquilo não parece fazer diferença nenhuma, enfim...estou chutando. Acho que vou ler isso.

E quem não chorou com Maes Hughes...

Panino Manino disse...

Sim, a vida tem dessas surpresas de mortes repentinas, eu mesmo já presenciei, só que Spica tem disso com uma frequência muito suspeita.
Nesse caso em particular, as circunstâncias da morte foram mesmo muito suspeitas. Considerando tudo que se passou então e que ainda se passará, deixa uma grande má impressão sobre o acontecido.

Pss disse...

Meu Deus, AnoHana feelings...

Gostei do post, acho importante diferenciar "morte motivacional"de "morte vamos fazer os leitores se emocionarem".

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