Um dos maiores sucessos de 2009 foi indubitavelmente K-ON!, projeto dos mesmos responsáveis pelas adaptações televisivas dos jogos da key como AIR e CLANNAD [a emissora de televisão Tokyo Broadcasting System/TBS; o estúdio de animação Kyoto Animation; a gravadora e grande patrocinadora Pony Canyon; e a fabricante de bonecos – também conhecida patrocinadora de animações – MOVIC] – sendo que desta vez resolveu-se apostar em um foco diferente que no drama característico das obras da conhecida produtora de jogos.Agora, o objetivo era somente acompanhar as vidas de quatro [depois cinco] meninas que refundam o quase extinto clube de música popular [i.e., sem instrumentos clássicos] da escola de Ensino Médio para garotas Sakuragaoka em seus dias regados a chá, bolo e de vez em quando a prática musical. Na primeira temporada, ela aparece com algum destaque, junto com piadas focadas em música – K-ON!, o anime de 2009, é parcialmente fiel ao espírito do material original, focado num humor simples de piadas rápidas e fáceis. Mas a marca das mulheres que adaptaram o manga de kakifly – identidade e portanto sexo indefinidos – já aparece.
De cara, o traço do manga é reinventado pelas mãos de Yukiko Horiguchi, a mesma character design de Lucky Star, de que K-ON! acaba sendo um refinamento de fórmula [sendo que as referências, um dos pilares de Lucky Star, praticamente desaparecem]. Duas características aparentemente contraditórias ficam destacadas no resultado final: a busca tanto pelo exarcebação do moe – note que o rosto das personagens chega a ser fofo, como se fossem um pouco gordas – como pela naturalidade, notada em aspectos como a cor do cabelo e dos olhos das personagens.No roteiro coordenado por Reiko Yoshida [Maria-sama ga Miteru; D-Gray Man], tivemos a adição de muitas cenas que basicamente compõem a espinha dorsal que liga os eventos aleatórios e motivos para as piadas rápidas [afinal, são tiras de quatro quadros] do manga. Claro, ficou um pouco repetitivo na parte final, mas o ritmo de K-ON! está dentro da média. Por fim, a direção de Naoko Yamada é competente e leva fácil alguém propenso a gostar da proposta pelos 12+2 episódios da série [é didático separar os episódios especiais dos demais] – lembrando que K-ON! é um anime que divide profundamente quem assiste em quem ama e quem odeia sua proposta de acompanhar o cotidiano de meninas de 15~17 anos], o que acaba sendo exarcebado pela imensa popularidade da série.
Sucesso obtido e 300 mil discos vendidos – só contando os DVDs/BDs da primeira temporada – depois, era claro que seria lucrativa a produção de mais uma temporada – e foi dada a deixa, até porque o último episódio dos especiais anuncia uma evolução delas como banda. Assim, em um show oficial da série [K-ON! Live ~Let’s Go~] com as dubladoras realizado em 31/12/2009 no Yokohama Arena [uma das maiores arenas de show do Japão] foi anunciada a segunda temporada. Agora K-ON!!, já uma realidade, contou com horário [ainda na madrugada mas mais valorizado que o anterior] novo, transmissão nacional [em vez de semi-nacional como de costume neste tipo de anime], número de episódios dobrado e orçamento reforçado.Mas o que mais mudou – apesar desta mudança ter sido meio na surdina – foi o foco [e pra isso vejo a influência do staff feminino como marcante]: se antes K-ON! era um basicamente um anime de comédia com foco nas piadas, a nova temporada – K-ON!! – deriva um pouco da fórmula e caminha por uma trilha slice-of-life.
Tal qual uma sitcom americana, com o passar do tempo aumenta-se a química entre o espectador e as personagens. E apesar dos personagens de K-ON!! carecerem de profundidade [afinal, a base delas são mais trejeitos – como as fobias de Mio – que realmente características] – mesmo tendo uma quantidade mais que o suficiente de episódios para aquela ter aparecido – na segunda temporada ganharam-se algumas camadas no relacionamento entre as personagens. Tanto que a combinação do grande tempo de exposição com os fortes laços de amizade entre as personagens [claro, um ponto alto da série] tornaram episódios como o 20 [apresentação no festival escolar] e 24 [formatura] emocionantes no ponto certo para uma série leve.
Esses laços de amizade tomam definitivamente o lugar de tema principal e talvez único da série. Yui Hirasawa, Mio Akiyama, Ritsu Tainaka e Tsumugi Kotobuki agora estão no terceiro ano do Ensino Médio; Azusa Nakano, no segundo ano. Surgem então dois temas interligados e paralelos relacionados a esta situação: 1 – a vida escolar perfeitinha das quatro está perto do fim e 2 – Azusa será a única integrante que estará presente na escola no ano seguinte – além de perder a companhia das grandes e melhores amigas, o clube terá que ser praticamente refeito de novo, em mais um ciclo.Esses dois temas são apresentados logo no primeiro episódio, explorados razoavelmente nos primeiros, deixados em banho-maria durante a maior parte da temporada e retomados, de maneira leve como é o costume, mas até contundente no terço final da série. O longo tempo de duração da série permite que os laços de amizade entre elas sejam mostrados e reforçados a cada um dos episódios, o que contribui para uma evolução natural. A nostalgia invocada nos episódios-chave da reta final é natural [o completo oposto do forçado episódio final de Angel Beats!]; a resolução dos temas citados acima, nem tanto.
K-ON!! acaba tendo um final um pouco covarde, sem que a formatura realmente signifique que os dias de colégio acabaram e que os caminhos trilhados pelas protagonistas provavelmente sejam diferentes, como na vida real – mas acaba fazendo sentido dentro do contexto de uma série onde o único homem nomeado foi Satoshi – o irmão da Ritsu. Já a Azusa que, como aponta o blog Gyabbo! em seu review da série “na verdade [...] em parte representava o próprio fã de K-ON!!” se derrete completamente na fase final do anime, chega a implorar para aqueles dias felizes não acabarem, mas pelo menos aqui a realidade vence e o relógio continua seu incessante avanço.Aqueles dias de felicidade existiram, mas chegaram ao final, como tudo na vida. E afinal, sempre se é possível viver novos, diferentes, como Azusa promete ao reconstruir, de novo, o clube. K-ON! não se compromete e oferece as duas respostas aos fãs, cabendo a eles decidir qual delas quer seguir: fingir que aquele clube continuará para sempre ou aceitar que foi um tempo muito válido, mas que acabou.
Falamos sobre a massa do bolo, mas K-ON!! é um anime sobre o recheio. Acredito que cada episódio é um pacote de 20 minutos para ser assistido sem nenhum compromisso e no qual embarcamos em um mundo sem os problemas e preocupações do nosso. Por focar nisso em vez da apelação de tantos outros que acabou ultrapassando a barreira do otaku comprador de fronhas para travesseiros tamanho família e é assistido por alguns outros estratos, como meninas interessadas em coisas fofinhas.E ao contrário do que alguns pensam, otakus conseguem muito bem assimilar séries não pensadas neles, distorcendo concepções da obra na primeira oportunidade em troca de algo que o agrade – quer melhor exemplo que as protagonistas dos filmes de Hayao Miyazaki anteriores a Porco Rosso, elevadas por certos fãs a esposas ideais e puras?
K-ON!! está longe de ser um dos melhores animes até mesmo de 2010 – a presença de um tema forte é reduzida, o meio desta temporada ficou esticado e nem mesmo tenta-se algo que ultrapasse a barreira do “bom”, apesar de redondo –, mas o resultado é divertido e simpático.
Possivelmente será pouco lembrado – até porque o moe está em trajetória bizantina de queda – Lucky Star mesmo já não é tão lembrado apenas 3 anos após sua exibição na TV, será então que daqui a 10 anos K-ON! será considerado um clássico? –, mas a honestidade da proposta chega a ser surpreendente. Desde o primeiro episódio da primeira temporada ficou clara a intenção do anime citada acima – e foi isso que nos foi oferecido.E é importante destacar algo: vejo K-ON!! mais como um anime para relaxar do que para rir; é o que talvez alguns fãs de comédia e mesmo de slice-of-life não levam em consideração na hora que igualarem rasteiramente K-ON!! a Azumanga Daioh, por exemplo, e dizerem que acham o primeiro superior.
Mas temos que lembrar que inicialmente [depois é que compilaram em um formato mais acessível/conhecido] Azumanga Daioh é um anime de 130 episódios de 4 minutos cada, e assim focado em piadas e situações mais rápidas. Bem mais que a primeira temporada de K-ON!.
Claro, K-ON!! é um anime para iniciados que viram os 14 episódios da primeira temporada. Quem realmente gostou da primeira temporada vai adorar; quem já achava as piadas poucas, vai largar de vez; quem realmente não gostou já deveria ter parado de torturar a si mesmo.
Vale também destacar que K-ON!! [juntamente com Yojou-han Shinwa Taikei] foi um dos únicos animes da temporada de Abril/10 indicados para o Sakuga@wiki [wiki que destaca as animações que possuem destaque pela movimentação, fluidez e outras características que tornam uma animação bem-feita].Realmente, a parte técnica de K-ON!! é impecável para um anime feito para TV, sendo a melhor produção televisiva do bom estúdio Kyoto Animation. O traço do manga até funciona nessa mídia, mas é focado demais na piada [gag] para uma obra cujo ponto básico de venda é o moe. Assim, ganha repaginação que transforma as personagens em bons representantes do padrão de beleza “moe”, com um toque sutil para o Super Deformed [SD] que permite o uso de inúmeras caretas pelas personagens sem ter que usar um segundo Character Design composto de versões pequenas [“chibi”] delas.
Os cenários são bem bonitos e fartamente computarizados – o recurso de aquarela característico do Kyoto Animation em objetos mais pessoais e próximos é a camada de vida que impede a plastificação de um To Aru Kagaku no Railgun. Outro diferencial é o fotorrealismo nos objetos, que é levado a sério [e que torna mais real um mundo de personagens desenhadas de maneira absolutamente irrealista] e que é um componente na medida para atiçar os fanáticos otakus – alguns chegam a pesquisar na internet cad objeto que aparece na série.
Digno de nota é o fato de da primeira para a segunda temporada ter ocorrido um ajuste na animação, notadamente no character design, mais elegante e consistente sem um grande aumento de complexidade no desenho. Mas nada que deixe a primeira temporada passar vergonha, já que também é muito bem feita.Quanto as músicas, o destaque maior continuou sendo as composições da banda Houkago Teatime [Hora do Chá Depois da Aula], com destaque para as não-presentes na história mas que compõem as aberturas [“Go! Go! Maniac” [Vai! Vai! Maníaca] e “Utauyo! Miracle”[Cante! Milagre]] e encerramentos [“Listen!” [Escute] e “No, Thank You!” [Não, Obrigado!]].
Note que as aberturas de K-ON! – da música à animação – são feitas de modo como se a banda fosse o que é, uma brincadeira de depois da aula; assim, a vocalista é Yui, que simboliza a série. Já os encerramentos possuem uma estrutura mais profissional, de clipe, com músicas mais pop; Mio, que representa a face mais séria da banda, que no início da série pensa até em tornar-se profissional, é a pessoa indicada para ser a vocalista aqui.
Além das aberturas e encerramentos, ao longo da série são apresentadas mais algumas músicas, sendo que estas sim são tocadas efetivamente dentro da história. Músicas como “Pure Pure Heart” [Coração Puro, Puro] e “U&I” são boas adições ao repertório, o qual ainda apresenta a única música escrita no original [“Fuwa Fuwa Time” [Tempo Fofo, Fofo]] como o principal destaque da banda.Continua o rock pasteurizado e fofo bem executado, mas isto é compreensível, já que a proposta acaba limitando o repertório que pode ser utilizado – mas até como uma certa compensação, temos uma aparição rápida da anitga banda de Sawako, Death Devil [Demônio da Morte], e seu rock pesado [mas nem tanto]. A trilha sonora da série é praticamente a mesma da temporada anterior, acertando no clima, mas discreta o suficiente para não ser um ponto alto da série.
Resumindo, foi uma viagem divertida. O planejamento foi simples, a execução teve diversos percalços, mas para o fã não importa. K-ON!! tem o potencial para ser talvez uma série lembrada ao menos como o retrato de uma época – claro que o hype criado em cima ajuda e muito – sendo simples, eficiente e coerente com sua honesta proposta de contar uma história relaxante de amizade entre cinco garotas fofinhas do Ensino Médio, simples mas com toques de complexidade nas entrelinhas. Mas apesar da tentativa de um alcance maior, seu sucesso está calcado no público fã de orelhas de gato e companhia – o tempo é que julgará se isso ficará ou não. Agora é esperar qual será o próximo lançamento do estúdio Kyoto Animation e mesmo do autor kakifly.
FICHA TÉCNICACriador: kakifly
Character Design: Yukiko Horiguchi [Lucky Star]
Roteiro: Reiko Yoshida [Maria-sama ga Miteru; D-Gray Man]
Direção: Naoko Yamada
Estúdio de Animação: Kyoto Animation
Ano: 2010
Categorias: Slice-of-Life, Escolar, Moe
Duração: 24+3 episódios de 24min30s cada [26 para a TV e um exclusivo para DVD/BD]
Formato: TV [1080i], depois em formato BD [1080p] e DVD [480p].
Nota: 7 [Bom]
3 comentários:
Oi, adorei o blog, adoro K-on...estou te seguindo, abraçao...
Eu me sinto um pouco culpado ao assistir à coisas moè. Mas mesmo assim acompanhei e assisti às 2 temporadas de K-ON!
No começo até achei que ia ter um enredo, quase ao nível de Beck, mas aí era pedir demais também. Ainda assim reclamo do clima slice-of-life excessivo da segunda temporada, mesmo sabendo que essa era a proposta da série. Foi realmente divertido, mas uma hora tem que acabar.
P.S: Existe uma trilogia de doujins, todas feitas pelo mesmo círculo de desenhistas, que mostra como seriam as coisas se Yui fosse um gênio musical e seguisse carreira profissional, além de mostrar o que fariam as outras integrantes da banda ao entrarem na fase adulta (se bem que a cara delas não mudou nem um pouco). Tem um clima mais dramático, contrastante com a do material original, com cada doujin terminando de uma maneira amarga, com gosto de derrota (ou simplesmente como as coisas são na vida real, às vezes). As personalidades das meninas foram mudadas um pouco, mas sem se desviar muito do original, sendo boas mudanças, elas até se tornaram mais humanas (com direito a desvios de caráter, alguns meio perturbadores).
É claro, não faltam aquelas cenas, mas elas são secundárias se comparadas ao enredo, assim como aquele famoso doujin de Evangelion, que também recomendo pelo enredo.
Ohayou!
K-ON!! talvez retrate uma época(boa época por sinal)na vida de uma turma de meninas "moe" e de ansiosos otakus enquanto não deixem a vida de ensino médio e assumam 'mais reponsabilidades',e isto causa grande empatia.Assim como as garotas que mudaram um pouco ele traz implicitamente esta questão,assim como o final que cada um decidi tal como no anime.
Ja ne!
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